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Saúde POBREZA MENSTRUAL

“Pobreza Menstrual” foi tema de destaque durante campanha de arrecadação de absorventes, realizada por uma jornalista em Guaxupé

Com a hashtag #EuMEImporto, Ana Carolina Negrão mobilizou a cidade e conseguiu arrecadar mais de 12 mil absorventes

08/05/2021 08h31 Atualizada há 2 meses
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Por: Redação 4
A jornalista Ana Carolina Negrão deu destaque ao tema da pobreza menstrual e a necessidade de políticas públicas para atender as mulheres que necessitam/Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista Ana Carolina Negrão deu destaque ao tema da pobreza menstrual e a necessidade de políticas públicas para atender as mulheres que necessitam/Foto: Arquivo Pessoal

Américo Passos

A jornalista Ana Carolina Negrão, que é Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Guaxupé (CMDM), foi a idealizadora da campanha #EuMeImporto, que arrecadou milhares de absorventes na cidade durante o mês de março, como forma de evidenciar o problema da “Pobreza Menstrual”, que atinge milhares de mulheres em todo o país e também no mundo.

O tema não ficou restrito à cidade de Guaxupé. No último domingo (05/05), o programa dominical da Rede Globo, o “Fantástico”, trouxe uma reportagem cujo tema foi a “Pobreza Menstrual” e evidenciou o problema enfrentado por milhares de mulheres em situação de vulnerabilidade econômica e social e os danos que isso traz às mulheres desde o início da menstruação até a fase adulta.

Em uma entrevista ao “O Alfenense”, Ana Carolina Negrão relata como é a sua atuação em relação aos direitos das mulheres e como foi realizar a campanha evidenciando um tema tão relevante.

O Alfenense: O que vem a ser a pobreza menstrual?

Ana Carolina Negrão: A pobreza menstrual é nova luta feminista. Incrível que este tema venha a ser debatido somente no século 21, mas com as mulheres engravidando cada vez menos e saindo de casa para trabalhar, a menstruação tornou-se um tormento para aquelas que não possuem condições financeiras para comprar absorvente.

O produto é taxado como item de perfumaria e tem alto imposto. Um pacote com 32 unidades, que seria o ideal para ser utilizado por uma única mulher em um mês, custa em torno de 10 reais. Ao fim do ano, essa mulher gasta R$120. Uma mulher que vive em situação de extrema pobreza, com um uma renda per capita menor que R$70 por mês, não vai deixar de comprar comida para comprar absorvente. E acabam passando por esta situação de falta de dignidade.

Isso tira a situação de equidade de oportunidade dessas mulheres, principalmente as adolescentes, que têm os estudos prejudicados. 26% das adolescentes com idades entre 15 e 17 anos não têm acesso ao absorvente. Por causa disso, faltam à escola, perdem conteúdo e são prejudicadas em seus estudos.

O Alfenense: Como foi levantar este tema?

Ana Carolina Negrão: Comecei a perceber esta situação em novembro de 2020, quando fiz uma matéria sobre pobreza. Entrevistei uma família em que haviam muitas mulheres. No dia seguinte à publicação, ganhei duas cestas básicas para levar para a família e fui a um sacolão complementar com legumes, frutas, verduras e algumas guloseimas para as crianças. Quando passei pela prateleira com itens de higiene, surgiu esse questionamento, nunca tinha visto distribuição de absorventes em cestas básicas, mas imaginava que o SUS pudesse ter algum programa neste sentido, já que há entrega de camisinhas e camisinhas femininas nas unidades de saúde.

O planeta inteiro sabe: quando uma mulher não engravida, menstrua, mas parece que os nossos órgãos de saúde não se atentaram para este pequeno detalhe da fisiologia feminina. Durante a reunião mensal do CMDM de Guaxupé, questionei as conselheiras ligadas à área de saúde e elas me informaram que não havia nenhum projeto neste sentido no âmbito do SUS, por isso começamos a trabalhar para conseguir viabilizar esse acesso ao absorvente a curto, médio e longo prazo.

A curto prazo, criamos a campanha #EuMeImporto com a Dual Criações e Farmácia Fórmula Certa apoiando a nossa iniciativa.

A médio prazo, estamos trabalhando na criação de um Fundo Municipal dos Direitos da Mulher para conseguir recursos para a compra do absorvente e, a longo prazo, será a sensibilização da classe política nas esferas estaduais e nacional. No estado de Minas Gerais, já conseguimos o apoio do deputado Dr. Cleiton e da deputada Beatriz Cerqueira.

A parceria de comerciantes foi fundamental como a de Letícia Teixeira, proprietária da Fórmula Certa, que a cada pacote de absorvente doado, o doador recebia um frasco de álcool em gel de bolso relatou Ana Carolina

O Alfenense: Qual a quantidade de absorventes que foi arrecadada? E como eles serão distribuídos?

Ana Carolina Negrão: Arrecadamos um total de 12.748 absorventes, além de fralda geriátrica, protetores e absorventes para incontinência. A fralda foi repassada para a Associação de Apoio aos deficientes de Guaxupé que tem demanda permanente deste item.

A maioria dos absorventes foi repassado à Secretaria de Desenvolvimento Social de Guaxupé, que fará a entrega do absorvente no kit de higiene da cesta básica. Outra parte será destinada ao presídio Guaranésia-Guaxupé para o uso das detentas. Muitas pessoas ainda continuam doando e vamos repassar para a Secretaria. Neste momento, é que vamos saber de fato quantas mulheres precisam desse item em Guaxupé.

O Alfenense: Faltam políticas públicas para as mulheres e famílias que estão vulneráveis e sem condições de aquisição de absorventes?

Faltam, e não apenas no Brasil, no mundo inteiro. A Escócia foi o primeiro país a ter uma lei que garante o acesso ao absorvente de forma universal e isso aconteceu em novembro de 2020. As mulheres são 51% da população brasileira, mas somente 15% dos políticos são mulheres.

Quando temos deputadas que se preocupam com o tema, a burocracia brasileira atrapalha o trabalho, como foi o caso da deputada Tábata Amaral que no ano passado apresentou um projeto de lei para que o SUS fornecesse absorventes ecológicos para mulheres pobres.

O projeto teria um impacto de R$119 milhões por ano no orçamento da União e não vingou. Mas vejo a economia do governo como uma economia porca. Uma mulher que usa materiais como miolo de pão, trapos de pano, estopa, algodão e jornal para conter o fluxo menstrual pode desenvolver doenças no aparelho reprodutor, que é extremamente sensível a qualquer mudança.

O Alfenense: O que você sentiu e continua sentindo ao realizar esta ação?

Ana Carolina Negrão: Eu nunca imaginei que uma ideia minha poderia movimentar a cidade da forma como foi. Mulheres sentiram-se sensibilizadas e compartilharam histórias tristes por causa da falta do absorvente na vida delas.

Homens começaram a mostrar preocupação com o tema e quiseram saber mais sobre o tipo de absorvente indicado para cada tipo de fluxo, como usava e com que frequência usar.

E o principal, mostramos que mulheres unidas podem transformar a sociedade, cada uma apoiando a outra da forma como pode e, por isso, tenho muito a agradecer às minhas colegas do CMDM, à Andreia e Valéria da Dual Criações, que deram o nome à campanha #EuMeImporto, e à Letícia, proprietária da Fórmula Certa, que abraçou a causa. À Gisele Biléia, que me colocou em contato com políticos para alertar sobre a urgência da situação, aos vereadores de Guaxupé que se prontificaram a ajudar na criação do Fundo dos Direitos da Mulher, e à Renata, secretária de Desenvolvimento Social, que também está na linha de frente para desenvolvermos as ações para proteger mulheres em vulnerabilidade social.

A intenção é dar primeiro a dignidade e equidade de oportunidades, para depois fortalecermos essas mulheres como empreendedoras e terem a sua independência.

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