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A sociedade do cansaço está nos matando

Você sente fadiga mental e física decorrente do excesso de positividade e cobrança de rendimento? Você se sente mais cansado que o normal durante a pandemia? Quantas horas você fica nas redes sociais? Você se sente cansado e mesmo assim não consegue dormir?

29/05/2021 09h18
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Por: Redação 4
Foto: Internet
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Guilherme Abrão

O conceito de sociedade do cansaço foi formulado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro que leva o termo cunhado em seu título, de pouco mais de 130 páginas, e de fácil compreensão. Nele o filósofo mostra que a sociedade disciplinar e repressora do século XX descrita por Michel Foucault perde espaço para uma nova forma de organização coercitiva: a violência neuronal.  

As pessoas se cobram cada vez mais para apresentar resultados, tornando-as vigilantes e carrascas de suas ações, sobretudo dos equipamentos eletrônicos e redes virtuais.  A obra transcende o campo filosófico e pode ajudar educadores, psicólogos e gestores a entender os novos problemas do século XXI.

Byung-Chul Han também menciona a “multitarefa” que diz respeito a fazermos diferentes coisas ao mesmo tempo, a qual agrava esse estado de fadiga. Neste contexto, perdeu-se a possibilidade de contemplação e o sujeito fechou-se em si mesmo, tendo dificuldade, inclusive, de lidar com o outro. E passamos a naturalizar e estimular a obsessão pelo trabalho e pelo desempenho e isso tem causado uma série de doenças.

Com a Covid-19 e as consequências da crise sanitária, parece que esse estado se mostrou ainda mais evidente, a rotina de teletrabalho. Ontem deixávamos o trabalho, hoje levamos ele para casa, dentro dos celulares e computadores, e as incertezas do dia-a-dia tem causado angústia e depressão em grande parte da população, em todas as faixas etárias e de renda. A sociedade do cansaço não faz esta distinção, infelizmente ela atinge a todos. E está cada vez mais comum a sensação de exaustão, mesmo após realizarmos pequenas tarefas, e também falta de sono no mundo contemporâneo, ambos são sinais da sociedade do cansaço.

Uma pesquisa aponta que, no caso dos brasileiros, 74% dos entrevistados adquiriram um ou mais problemas de sono, com 50% relatando que a pandemia afetou diretamente sua capacidade de dormir bem; além disso, 47% dos participantes disseram que acordam no meio da noite. Os números fazem parte de uma pesquisa feita pela Royal Philips, neste ano, com 13 mil adultos em 13 países, incluindo o Brasil.

Um outro sinal, a depressão. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o segundo país com maior número de depressivos nas Américas, com 5,8% da população, ficando atrás somente dos Estados Unidos, com 5,9% de depressivos. A doença afeta 4,4% da população mundial. O Brasil também é o país com maior prevalência de ansiedade no mundo: 9,3%. Isso significa que quase 12 milhões de brasileiros sofrem com a doença, ela é mais comum e presente em nossos lares e círculos de amizades, do que imaginamos.

Temos que registrar e divulgar que a depressão tem tratamento e o primeiro passo é conversar sobre o assunto.  A doença, afeta pessoas de todas as idades e estilos de vida, causa angústia e interfere na capacidade do paciente fazer até mesmo as tarefas mais simples, e não é brincadeira ou frescura. No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio, segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, dados da OMS.

A Covid-19 nos impediu de vivermos o luto das perdas, e ele é fundamental. Infelizmente normalizamos as mortes, vivemos uma verdadeira roleta russa em um Brasil que passou das 460 mil mortes, e não temos vacinas suficientes. Nos sentimos impotentes, e muitos de nós tem evitado o choro, seguramos as emoções como se fossemos fortes e não pudéssemos expor nossas fragilidades, e isso é perigoso e faz mal.

É permitido chorar? SIM! Quando choramos estamos colocando para fora uma mágoa, ou seja, uma “má água”. Estamos imersos nesse pensamento, intitulado por Han de “excesso de positividade”, que nos leva a um cansaço mental e físico, este é um dos efeitos colaterais do discurso motivacional.

O mercado de palestras e livros motivacionais estão crescendo desde o início do século XXI e não mostra sinais de desaquecimento, ao contrário de outros gêneros literários, que amargam quedas e prejuízos. Religiões tradicionais estão perdendo adeptos para novas igrejas que trocam o discurso do pecado pelo encorajamento e autoajuda.  Em uma época onde poderíamos trabalhar menos e quiçá ganhar mais, a ideologia da positividade opera uma inversão perversa: nos submetemos a trabalhar mais e a receber menos.

E cuidado com a onda forte do “eu consigo”, “eu vou e faço”, “se ele faz eu também faço”, ou do slogan do Presidente Obama “yes, we can”, estas frases de efeitos podem parecer inofensivas, mas não são, dentro da sociedade do cansaço, do estímulo à disputa com outros e consigo mesmo, podem gerar o aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e burnout.

Por fim, a empatia e o apoio são essenciais para o tratamento da depressão. Se você está passando por um momento difícil ou conhece alguém que está mal, lembre-se de que a depressão tem cura! Não se deixe consumir pelos pensamentos negativos e procure ajuda no primeiro sinal de que algo não vai bem, você consegue!

E se puder, tente desacelerar a vida, viver e valorizar os pequenos momentos, tire tempo para você, desligue-se um pouco do celular, das redes sociais, não se cobre tanto, sinta e ouça o vento, os pássaros, tome mais sol, e respeite seus medos, e saiba que falhar faz parte.

Força e sinta-se abraçado!

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Sobre Ao Ponto
GUILHERME ABRAÃO, formado em Direito pela PUC Campinas/SP, aluno de Ciências Sociais pela UNIFAL. Foi consultor da UNESCO, Conselheiro Estadual de Cultura, Superintendente de Cultura da Prefeitura Alfenas/MG, foi Assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados, Assessor Jurídico da Prefeitura de Pouso Alegre/MG, e Diretor Municipal de Cultura em Estiva/MG. Vice-presidente do Circuito Turístico Lago de Furnas. Faça contato através do e-mail: [email protected]
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