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Sobre internet e passarinhos

As crianças e adolescentes não são mais machos caçadores, nem conhecem estilingue ou espingardinha de pressão; não conhecem a vida como conhecemos na nossa infância e juventude, mas por outro lado nunca mataram um doce e lindo canarinho ou calaram o melodioso canto de um pássaro preto ou sabiá. E o Brasil continua com palmeiras onde canta o sabiá e está hoje bem mais verde e amarelo

11/06/2021 14h07 Atualizada há 2 semanas
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Por: Redação 4
Foto: Internet
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Victor Corrêa

Nos tempos tecnológicos que vivemos nos dias de hoje o computador e a internet estão introjetados em nossas vidas que nem percebemos mais que um dia não existiram, assim como inúmeras outras coisas como aquele rádio transmissor/receptor que parece que é um membro de nossos corpos que é coloquialmente chamado de telefone celular ou só “celular”, mas que de telefone não tem nada. Assisti muito e tenho em uma coleção de CDs (tecnologia que já foi do futuro e hoje é do passado) de uma antiga serie de televisão e que chegou até mesmo ao cinema que se chama “Jornada nas Estrelas” e era pura ficção científica e tinha como principais protagonistas o capitão James T. Kirk e o segundo oficial cientista o Mr. Spock. Me deleitava com as aventuras da nave Enterprise “em sua missão de cinco anos... para explorar novos mundos... para pesquisar novas formas de vida e novas civilizações... audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve...” Dentre as muitas tecnologias que integrava o dia-a-dia dos personagens estava o microcomputador com transmissão instantânea de dados e o envio e recepção de imagens como hoje vemos e um aparelho transmissor/receptor basicamente idêntico e com as funções de nossos atuais celulares, acho até que os nossos fazem muito mais coisas. Era o “futuro” retratado como ficção científica e que chegou e vivemos hoje corriqueiramente; só faltou o teletransporte que levava as pessoas de um lugar a outro transformando-as em energia onde estavam para materializá-las onde queriam ir, mas com certeza um dia inventarão.

Dentre essas tecnologias que utilizamos trivialmente está o tal de WhatsApp que se tornou um importante e rápido meio de comunicação e que aos poucos está escravizando muita gente. Dentro dele se criaram grupos de pessoas como rodas de conversas que agregam gente com interesses comuns e se multiplicaram assustadoramente; as vezes, nos colocam em alguns que ficamos sem jeito de sair e nos solicitam reiteradamente e por fim somos obrigados de forma constrangida as nos retirar, mas se formos participar ativamente de todos acabamos ficando sem tempo para mais nada, até comer. Por isso, participo de muito poucos e via de regra apenas como expectador sem nada comentar. Dos que participo ativamente, um dos únicos, está o de minha turma de engenharia da antiga EFEI – Escola Federal de Engenharia de Itajubá, hoje UNIFEI, pois que se tornou há muitos anos universidade, e esse grupo de WhatsApp leva o nome de nossa turma como Grupo do Boné.

Nesse grupo se conversa de tudo, desde reminiscências de velhos “causos”, comidas e bebidas nas quais muitos se tornaram experts, dia-a-dia de cada um e muito mais. O interessante é que parece um grupo de adolescentes conversando como nos velhos tempos, especialmente que na hora da conversa, escrita ou por áudio, a mente remete às figuras de cada um nos velhos tempos que convivíamos diuturnamente em Itajubá como estudantes e a grande maioria colegas e amigos que remontam ao científico/colegial (hoje ensino médio), ginásio e primário e engrossado valiosamente por outros que chegaram no curso superior. Efetivamente, e é como me sinto, na maioria das conversas são adolescentes na casa dos sessenta e tantos anos, alguns já entrando nos 70, agindo e reagindo, e muitas vezes acaloradamente, o que acho sensacional, que levam até a alguns saírem do grupo e quase sempre retornando, principalmente quando se envereda pela seara política e que é quase inevitável no momento no Brasil e acentuado porque vivemos naquela época o auge do regime militar instaurado no país em 64 e muitos de nós tivemos efetiva a agitada participação no movimento estudantil de então. Destacando que nesse nosso Grupo tem também algumas “meninas” que eram minoria à época e que decidiram fazer o curso de engenharia e recebiam toda a atenção dos “meninos”.

Dia desses, um querido amigo e colega, o Geraldo Raymundo Corrêa, nascido em Pedralva, daqueles que Deus fez e perdeu a forma, como praticamente todos os outros, postou um daqueles vídeos que remete ao que as crianças dos anos 60 faziam como nadar nos rios, pescar, rodar pneus, e muito, muito mais e que basicamente retratou nossa infância e juventude e me emocionou muito. Coisas que as crianças e adolescentes em sua esmagadora maioria nos dias de hoje desconhece se limitando às peripécias virtuais.

Foi tudinho muito bom, não tem dúvidas. Mas lembro e sinto uma certa tristeza e forte arrependimento por uma das coisas que fazíamos que era caçar passarinhos, e não está no referido vídeo, e por não ter solução do tanto de passarinhos inocentes que cassei; canarinhos, pássaros pretos, sanhaços, sabiás, pardais, até tizius! Com estilingue ou espingarda de pressão. Pra quê? Disputava com os amigos e primos quem matava mais e os velhos tios e país achavam bonito como herdeiros de estirpe. Pardal nem contava pois que era considerado praga e sem graça. Era a cultura da época e os passarinhos diminuíram tanto que quase acabaram.

Cresci, amadureci e abracei uma profissão que me tornou defensor do meio ambiente e passei a caçar caçadores e puni-los penalmente, pois o mundo mudou tanto e o Brasil em especial que criou uma lei que proibiu a caça e protege a fauna e a flora. Certa feita, em Guapé, a comarca que trabalhava e finquei raízes, chegando ao meu conhecimento da enorme quantidade de pessoas que caçavam passarinhos e passavam a mantê-los em gaiolas, junto com a polícia militar e polícia florestal (assim chamava, hoje polícia ambiental) e fiscais da Prefeitura, fizemos uma enorme operação onde foram apreendidos e posteriormente devolvidos à natureza e os infratores processados no Juizado Especial Criminal; isso me custou a inimizade de vários amigos e o horror de inúmeros deles, alguns compreenderam logo e praticamente todos hoje, décadas depois, reconhecem a importância da ação. Vale destacar que naqueles tempos ainda não existia a Lei dos Crimes Ambientais e caçar não era proibido, necessitava apenas de uma licença administrativa, uma “carteira” de caçador e que ninguém nem se preocupava em obter. Com base na Lei de Contravenções Penais e na recém promulgada Lei dos Juizados Especiais consegui coibir a danosa atividade, o que mais tarde, em 1.998, foi recepcionado pela lei ambiental.  

Com isso, aos poucos, os passarinhos voltaram, todos eles além das andorinhas, principalmente os canarinhos que voltaram em grande quantidade a colorir de amarelo o nosso verde e nossas almas.

As crianças e adolescentes não são mais machos caçadores, nem conhecem estilingue ou espingardinha de pressão; não conhecem a vida como conhecemos na nossa infância e juventude, mas por outro lado nunca mataram um doce e lindo canarinho ou calaram o melodioso canto de um pássaro preto ou sabiá. E o Brasil continua com palmeiras onde canta o sabiá e está hoje bem mais verde e amarelo.

* As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião deste portal de notícias.

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DIREITO E REALIDADE / Breves divagações sobre o Direito e a realidade que nos cerca
Sobre DIREITO E REALIDADE / Breves divagações sobre o Direito e a realidade que nos cerca
VICTOR CORRÊA DE OLIVEIRA, Promotor de Justiça em Minas Gerais por quase 30 anos, aposentado; professor de Direito da UNIFENAS por quase 25 anos, ministrou as cadeiras de Introdução do Estudo do Direito, Direito Civil e Direito Penal; Juiz de Direito concursado em Minas Gerais em 1.992. Formado em Direito na PUC/SP, cursou Engenharia Mecânica na UNIFEI e jornalismo na PUC/SP. Manteve uma coluna sobre Direito no Jornal dos Lagos e outros jornais da região por vários anos.
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