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Geral MORTE JACARÉ

4 anos da morte cruel do jacaré do Zoológico de Alfenas

Jacaré, do papo amarelo, foi decapitado e teve corpo roubado. Ele estava há 15 anos no Zoológico de Alfenas, os autores deste crime bárbaro nunca foram identificados

03/07/2021 09h51 Atualizada há 3 semanas
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Por: Redação 4
A morte do jacaré continua sem solução após 4 anos e o parque municipal está fechado a cerca de 6 anos após de serem utilizados mais de 2 milhões para uma reforma/Fotos: Juquiel dos Santos
A morte do jacaré continua sem solução após 4 anos e o parque municipal está fechado a cerca de 6 anos após de serem utilizados mais de 2 milhões para uma reforma/Fotos: Juquiel dos Santos

Guilherme Abraão

Na noite do dia 04 de julho de 2017, com ajuda da claridade da luz da lua cheia, o jacaré do papo amarelo macho, que vivia no Zoológico Municipal Manoel Pedro Rodrigues em Alfenas há mais de 15 anos foi vítima de um crime cruel, e até hoje, passados 4 anos, o caso continua sem elucidação. Esta espécie é conhecida por esse nome pois, durante a fase do acasalamento, estes animais ficam com área do papo amarelado, e podem medir até 3 metros de comprimento. Os jacarés-de-papo-amarelo fazem parte da lista de animais ameaçados de extinção pelo IBAMA.

No registro da Policia Militar que compareceu no local, a ocorrência entrou na categoria de furto. Mas, será que este foi o motivo principal da barbaridade? O corpo do animal foi levado, pesava mais de 100 quilos e tinha mais de 2 metros. No comércio ilegal e criminoso a carne tem alto valor e seu couro também. Quem cometeu o crime conhecia bem os hábitos do animal, e não teve medo de enfrentar o réptil, que tem hábitos noturnos e durante o dia gostava de tomar sol.

No boletim de ocorrência, narra-se que havia vigia no Zoológico, mas no ato da lavratura não foi localizado, ainda consta que ocorreu um arrombamento do cadeado do portão da jaula. O animal vivia no recinto com sua companheira de décadas da mesma espécie, um pouco menor que ele. Estavam acostumados com a presença de humanos, em especial dos funcionários do Zoológico. O local foi fechado em 2010, por determinação do IBAMA e em 2015 foi anunciado a reabertura do local. Na época existiam aves, felinos, macacos e bichos exóticos, eram mais 115 animais de mais de 25 espécies. As obras custaram cerca de 2 milhões aos cofres públicos. Passados 6 anos do anuncio, o Zoológico continua fechado ao público. Na época, outros crimes como furtos já haviam sido registrados no local.

O animal, que pode viver até 50 anos, foi morto supostamente a golpes de machado, sua cabeça e vísceras foram encontradas na mata, local que ocorreu o abate, tudo ao “silêncio” da noite. Para deixar limpo o animal e deixar as vísceras, a ação durou um bom tempo, afinal, abrir o couro grosso do animal não é algo fácil. Segundo noticias de vários jornais, o crime ganhou as manchetes de vários órgãos de imprensa do país. Funcionários do Zoológico também encontraram um microchip com a identificação do animal, o autor sabia deste detalhe fundamental, mais uma pista que conhecia o animal.

A carne de jacaré é exótica e o quilo pode custar facilmente mais de três cifras de reais. Segundo o portal de noticia G1, a Polícia Militar Ambiental suspeitou que o animal seria vendido para consumo, no entanto, o Sul de Minas não é mercado consumidor para esse tipo de carne. Um militar fez a seguinte afirmação: "intriga mais porque a gente não vai saber por que foi feito, já que não existe comércio na região".

A primeira coleção de animais foi provavelmente feita pelos egípcios, há mais de 4 mil anos, e possuía 100 elefantes, 70 felinos e milhares de outros mamíferos. Os primeiros zoológicos eram coleções particulares, geralmente de reis, que gostavam de ostentar os animais como forma de poder e domínio. O Zoológico de Schonbrunn, na Áustria, foi construído pelo imperador Francisco I em 1752.

No Brasil, no Rio de Janeiro em 1888, o Barão de Drummond fundou o primeiro zoológico brasileiro. O Zoológico de Alfenas, foi fundado em 1979, e possui seis alqueires. Em sua borda existe um fragmento de mata, possui um lago na parte central, e um teatro de arena com capacidade para mil pessoas. Nas décadas de 80 e 90 o local recebia milhares de frequentadores, atraídos pelas piscinas. À época, era permitido fazer churrasco no local, e era o principal equipamento de lazer dos alfenenses e de pessoas que vinham das cidades vizinhas. Os animais já viviam nas pequenas jaulas distribuídas pelo local.

Atualmente existem questionamentos sobre a necessidade de manter animais enjaulados, e submetidos à crueldade. Animais podem desenvolver neuroses e outras doenças em cativeiro. Zoológicos e aquários muitas vezes mantêm animais exóticos em ambientes inadequados às necessidades de cada espécie. A noção romântica que muitas pessoas possam ter destes parques está longe da realidade. Até quando iremos naturalizar e aceitar a existência destes locais?

Estes não são locais de lazer, educação ambiental ou pesquisa, mas de sofrimento interminável para os animais, condenados por humanos sem direito a defesa, sem falar nos altos custos para mantê-los em jaulas e condições extremamente questionáveis do ponto de visto do bem-estar animal. A visão de animais como “coisas” ou “objetos” a serem utilizados para nossos propósitos não é recente na história humana, e como todas as demais “coisas”, animais parecem ter sido sempre colecionados por seres humanos.

Uma outra possível alternativa para muitos dos animais que hoje se encontram em zoológicos são os santuários. Santuários de animais, diferentemente de zoológicos, não priorizam a diversidade de espécies. Eles dão abrigo a grande número de indivíduos pertencentes a poucas espécies, e geralmente vivendo em espaços bem maiores. Santuários também priorizam o bem-estar do animal, e não sua exposição ao público. Santuários podem se especializar em determinados grupos de animais, de modo que isso facilite seu manejo.

Em 2009, em Pouso Alegre, o antigo Zoológico, com mais de 180 animais, entre grandes felinos, aves e primatas, foi fechado e transformado em Parque Ambiental, os animais transferidos para outros zoológicos e santuários. Em 2014, a Câmara Municipal de Pouso Alegre aprovou por unanimidade um projeto de lei que alterou o nome do Parque Zoobotânico de Pouso Alegre (antigo Zoológico, chamado popularmente de Horto) para

“Parque Natural Municipal Prof. Dr. Fernando Afonso Bonillo Fernandes”, em uma a justa e necessária homenagem para uma das principais referências em defesa do meio ambiente no Sul de Minas, servidor do IBAMA e professor universitário.

Passados 4 anos da terrível morte do jacaré do Zoológico de Alfenas, ninguém foi preso, tampouco os autores foram identificados, e o assunto caiu no esquecimento, talvez até de forma proposital, mas quais as razões do crime? Será que o animal foi vítima de uma disputa, de uma possível tentativa de incriminar inocentes? Quais as medidas de segurança foram adotadas? Muitas perguntas e poucas respostas pairam sobre este bárbaro crime de um animal indefeso, que já vinha cumprindo uma pena, sem ter cometido nenhum crime, exposto para saciar o desejo de alguns.

Quais as razões de Alfenas ainda ter um zoológico é a maior das perguntas, afinal, usar animais, mantidos em jaulas, sem bem-estar que vá além de boa alimentação, e se esconder em uma pretensa forma de educação ambiental é um tremendo contrassenso, sujeitos a novas mortes cruéis como o jacaré...

 

* As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião deste portal de notícias.

 

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Sobre Ao Ponto
GUILHERME ABRAÃO, formado em Direito pela PUC Campinas/SP, aluno de Ciências Sociais pela UNIFAL. Foi consultor da UNESCO, Conselheiro Estadual de Cultura, Superintendente de Cultura da Prefeitura Alfenas/MG, foi Assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados, Assessor Jurídico da Prefeitura de Pouso Alegre/MG, e Diretor Municipal de Cultura em Estiva/MG. Vice-presidente do Circuito Turístico Lago de Furnas. Faça contato através do e-mail: [email protected]
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