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Geral ZOOLÓGICO

AINDA TEMOS UM ZOOLÓGICO

Manter animais enjaulados, condenados sem nenhum crime, apenas para o bel-prazer dos humanos, expondo como objetos ou mercadoria, em muitos locais sem condições mínimas. Precisamos debater o futuro desses espaços, aceitar o uso de animais como fonte de prazer dos humanos precisa ser questionada fortemente

18/12/2021 09h52
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Por: Redação 4
Macacos no zoológico de Alfenas/Foto: Arquivo Pessoal
Macacos no zoológico de Alfenas/Foto: Arquivo Pessoal

 

Guilherme Abraão

Foi na cidade de Nekhen, Egito, 5.500 anos atrás, que surgiu o primeiro zoológico conhecido na história. Nele eram mantidos centenas de animais entre hipopótamos, elefantes, antílopes, babuínos, felinos selvagens. No entanto, a proposta dessa coleção não era a exibição pública dos animais.

Não raro os nobres e comerciantes abastados adquiriam leões ou outros animais, os quais mantinham como símbolo de status, riqueza ou poder, quanto mais exótico, feroz ou raro, melhor era. Os zoológicos se multiplicaram entre o século XVIII e XIX, profundamente ligados ao colonialismo e a invasão de novos territórios pelos europeus.

A noção romântica que muitas pessoas possam ter destes locais está longe da realidade. Estes não são locais de lazer, educação ambiental ou pesquisa, mas de sofrimento interminável para os animais. Os zoológicos promovem uma mercantilização dos animais e uma mascotização (criando fetiche nos visitantes) da vida selvagem que deforma a mensagem pedagógica.

Atualmente, existem mais de 3,5 milhões de animais (segundo dados do sistema de contabilização Zims) que se mantêm em todo o mundo. E pouquíssimos zoológicos são capazes de implementar um programa in loco com as espécies ameaçadas ou reintroduzi-las em seu hábitat natural.

Em muito zoológicos vemos os animais expressarem suas dores, animais apresentam comportamento repetitivo, andando de um lado para o outro da cela, animais que se alimentam de suas próprias fezes, animais que tentam cavar no concreto, animais que balançam a cabeça freneticamente, macacos que se masturbam compulsivamente, papagaios que se automutilam....

Usar zoológicos, em especial os pequenos, em cidades do interior (onde existe pouca infraestrutura e ausência de profissionais capacitados e aptos) como ferramenta de educação ambiental é um terrível contrassenso.  Afinal, uma criança que vê um animal em um recinto de fato aprecia o animal, mas a mensagem que ela recebe, ainda que de maneira subliminar, é a de que podemos aprisionar animais. Animais são inferiores e nós somos superiores. E nossa superioridade nos permite capturar um animal na natureza e mantê-lo em cativeiro.

Outra desculpa comum para justificar a manutenção de zoológicos é a de que essas coleções são depositárias de animais ameaçados, e talvez representem a solução para o problema de algumas espécies em vias de extinção. Ora, de que adianta manter em um zoológico alguns poucos exemplares de determinada espécie enquanto seu habitat é suprimido? Preservação de fato é a preservação de um bioma, a preservação da espécie em seu habitat. A preservação da variabilidade genética dentro do grupo. Nada disso se pode conseguir com zoológicos.

Grandes zoológicos, como o de Teresina e Recife (em duas grandes e importantes capitais, com grandes equipes e bons orçamentos) anunciaram recentemente planos de reestruturação e transferência de animais para santuários e mantenedores de fauna (existem vários no Brasil). Mas, o que são santuários e mantenedores de fauna?

Em todo o mundo existem locais dedicados ao resgate e ao cuidado de animais resgatados, vítimas da exploração de circos, jardins zoológicos, experiências científicas ou posse de “animais de estimação exóticos”, não podendo ser reinseridos no seu ambiente natural.

Esses lugares têm o nome de santuários ou mantenedores de fauna, organizações comprometidas com o bem-estar e que oferecem um lar para toda a vida, principalmente nos casos em que esses animais não podem, por diversos motivos, ser reinseridos na natureza. Alguns desses santuários são dedicados a dar lar a uma espécie específica, como santuários de elefantes, enquanto outros abrem suas portas para uma família específica, como grandes felinos, aves ou primatas.

Em Alfenas, existe o Zoológico Municipal, fundado em 1979, graças a doação de seis alqueires ao Município pelo Sr. Manoel Pedro Rodrigues, com lago natural e fragmentos de mata, o espaço segue fechado para visitação, mas existem planos de reabertura. Em 2017, um jacaré do papo amarelo, foi brutalmente morto no local, o crime repercutiu nacionalmente, mas até hoje não foi esclarecido.

Bem perto de Alfenas, em Pouso Alegre. O antigo Zoológico, com mais de 180 animais, entre grandes felinos, aves e primatas, foi fechado e transformado em Parque Ambiental, os animais transferidos para outros zoológicos e santuários. Atualmente o local se transformou no principal ponto turístico e de visitação da cidade.

Antes da morte do jacaré já existiam questionamentos e pedidos para o fechamento do Zoológico de Alfenas. O crime bárbaro deveria ser motivo de reflexão, de amplo debate e repensar a existência do local com a permanência dos demais animais enjaulados. Há época houve questionamentos, pedidos de visita ao local para verificar as condições dos demais animais, pedidos de acesso ao inventário de espécies abrigadas, mas publicamente isso nunca foi disponibilizado.

Que Alfenas precisa de parques, e espaços de lazer isso é inquestionável, e o Zoológico poderia ser transformado verdadeiramente em um bom parque, mas sem a exibição de animais. A própria permanência dos animais impede o uso do espaço para outras finalidades, sem falar do alto custo de recursos oriundos da Secretaria Municipal de Educação para manter o local.

Em tempos do espessíssimo animal, das soluções simplistas por parte dos poderes (para ganhar curtidas nas redes sociais) ou até mesmo tirar proveito político da falsa defesa dos animais a manutenção de espaços como os descritos acima é um afronte e um tremendo desrespeito aos animais, sobretudo aqueles indefesos, enjaulados e condenados sem crimes que estão lá para satisfazer o ego de uma sociedade doente, no sentido de escolher determinados animais como membros da própria família em detrimentos de outros. 

* As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião deste portal de notícias.

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Sobre Ao Ponto
GUILHERME ABRAÃO, formado em Direito pela PUC Campinas/SP, aluno de Ciências Sociais pela UNIFAL. Foi consultor da UNESCO, Conselheiro Estadual de Cultura, Superintendente de Cultura da Prefeitura Alfenas/MG, foi Assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados, Assessor Jurídico da Prefeitura de Pouso Alegre/MG, e Diretor Municipal de Cultura em Estiva/MG. Vice-presidente do Circuito Turístico Lago de Furnas. Faça contato através do e-mail: [email protected]
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