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Saúde PESQUISA COVID-19

INDICADORES DA PANDEMIA SINALIZAM O QUE ESPERAR DO CENÁRIO EPIDEMIOLÓGICO DA COVID-19 PARA 2022

Pesquisador analisa parâmetros de saúde nas cidades onde há campus da UNIFAL-MG

13/01/2022 20h01
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Por: Redação 4 Fonte: Dicom/UNIFAL-MG
Testagem para Covid-19/Foto: Raquel Portugal - Fio Cruz
Testagem para Covid-19/Foto: Raquel Portugal - Fio Cruz

 

Da Redação

Diante da explosão de casos de covid-19 causados pela variante Ômicron e após 56 semanas acompanhando os parâmetros de saúde e evolução da doença no estado de Minas Gerais e na região, o grupo de pesquisa liderado pelo epidemiologista e professor Sinézio Inácio da Silva Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da UNIFAL-MG, anunciou com propriedade na edição desta semana: “O Brasil vive a maior escalada de casos de covid-19 de toda a pandemia.”

A angústia de se deparar com mais um período de aumento de casos traz muitos questionamentos, sobretudo, por ameaçar a normalidade de atividades, como das próprias instituições de ensino superior, que já se preparavam para o retorno de parte das atividades presenciais e começam a adiar ou readaptar o retorno, devido aos riscos da transmissão comunitária.

Será que o cenário epidemiológico da covid-19 em 2022 será melhor que nos últimos dois anos? Qual é a situação nas cidades de Alfenas, Poços de Caldas e Varginha, nas quais a UNIFAL-MG tem campi?

Na opinião do professor Sinézio Silva, o cenário de 2022 apresenta algumas características diferentes do que foi vivenciado nos últimos dois anos. Segundo ele, embora haja predominância da variante Ômicron, que é altamente transmissível, já existem experimentos de laboratório que apontam sintomas menos graves da infecção. Mesmo que os pesquisadores necessitem aprofundar os conhecimentos, a cobertura vacinal tem sido importante para as observações clínicas.

“Nos últimos dois anos, nós não tínhamos no primeiro ano a vacina e não tínhamos tido tempo de acumular uma população vacinada no nível que nós estamos. É preciso comparar o efeito da Ômicron entre diferentes idades e nessas idades, a pessoa vacinada e a não vacinada”, diz, afirmando que há indicativos de que a Ômicron cause manifestações patológicas menos graves.

O pesquisador observa que é preciso ponderar, no entanto, o fato de que a variante Ômicron é mais transmissível e resistente à defesa criada pela vacina e por quem já pegou a infecção de outras variantes. “A variante Ômicron tem o tal do escape imunológico, ou seja, em relação às defesas criadas por pessoas vacinadas e que já teve a doença por outras variantes, ela resiste melhor, por isso, as vacinas não estão sendo tão efetivas em conter novos casos, mas as vacinas estão sendo muito importantes para evitar mortes e um volume de internações que aconteceu nesses últimos dois anos”, constata.

Para o epidemiologista, ainda que a variável possa produzir casos menos graves e as pessoas infectadas terem que se afastar do trabalho, o que compromete a rotina de atividades, o contexto indica que não teremos que conviver com alto número de internações e óbitos. “Sem dúvida nenhuma, apesar desse grande número de casos, pelo menos no curto e médio prazo, o cenário vai ser melhor”, afirma.

Após ao que chama de “curto e médio prazo”, o pesquisador acredita que é possível vislumbrar dois cenários: um otimista e outro pessimista. Na interpretação otimista, pela lógica evolutiva, a longo prazo a pandemia seria controlada. “Seria uma variante que, somada a outras contaminações e infecções por outras variantes, mais a população vacinada, mais as infecções que ela está criando, ajudaria casos já acontecidos e acontecendo de pessoas vacinadas a produzir uma imunidade coletiva”, calcula.

Já a visão pessimista seria o surgimento de outras variantes com ritmo acelerado de casos. “Se o mundo deixar acontecer um grande número de casos, isso aumenta a probabilidade de outras variantes surgirem, com grande ritmo de contágio e trazer mais preocupação”, explica, afirmando ser particularmente propenso a acreditar na visão mais otimista, porém alertando que é preciso ter prudência.

“Se pegarmos o Reino Unido e a Espanha como exemplo, eles chegaram a dois meses de aceleração de pandemia, desde que a curva começou a subir, chegaram em uma média móvel de novos casos, três vezes maior do que a maior média móvel de casos registrada ao longo do histórico da pandemia. Então, pelo menos dois meses é de se esperar que esses casos vão continuar altos e que para voltarem aos níveis que tínhamos, nós podemos demorar mais um ou dois meses”, avalia.

O que apontam os indicadores em relação à Alfenas, Poços de Caldas e Varginha

Conforme o epidemiologista, os indicadores básicos para serem analisados em uma situação epidemiológica é o número de mortes e o número de casos, dos quais se derivam as taxas de mortalidade, de mortalidade entre os doentes — também chamada de letalidade —, e a de incidência, que é o número de casos em relação à população.

Pelo fato de a covid-19 ser uma doença infecciosa e de curta duração, o grupo de pesquisa coordenado pelo professor e responsável pela divulgação semanal dos boletins epidemiológicos utiliza “incidência acumulada” em vez de taxa de incidência.

“Entre os 10 municípios mais populosos do Sul de Minas, entre os quais se encontram Alfenas, Poços e Varginha, em termos de porcentagem de casos na população, Alfenas tem 14,9%, ou seja, a cada 100 habitantes na população de Alfenas, temos quase 15 casos registrados. Isso faz com que Alfenas esteja em 2º lugar na região”, explica. Varginha tem 14,1% e Poços de Caldas tem 9% de casos registrados em relação à população.

Atualmente, o primeiro lugar é ocupado por Pouso Alegre, seguido por Alfenas, Varginha, Três Pontas, Itajubá, Passos, São Sebastião do Paraíso, Lavras e Poços de Caldas.

O epidemiologista mostra que se o Sul de Minas tem hoje 11,7% de incidência acumulada, o que significa que a cada 100 habitantes na região, 12 casos de covid-19 são identificados, a incidência acumulada de Alfenas e de Varginha é maior do que a do Sul de Minas e a incidência de Poços é menor.

“Esse indicador mostra a força da circulação do vírus ou o ritmo do contágio na população. Então nós podemos dizer que das três cidades em que nós temos campus da UNIFAL-MG, Poços de Caldas é aquela que tem o menor ritmo de contágio, abaixo inclusive do Sul de Minas. Alfenas e Varginha estão muito semelhantes. Isso é importante porque na hora de se optar, por exemplo, por voltar a atividades presenciais de universidades, é preciso levar isso em conta”, analisa.

Para exemplificar, o professor explica que, se Alfenas tem em torno de 80 mil habitantes, Poços de Caldas, 167 mil, e Varginha, 140 mil, é possível especular o impacto da volta às aulas nessas cidades. De acordo com ele, do ponto de vista epidemiológico, o impacto pode ser maior em Alfenas considerando o número de habitantes e o ritmo de contágio.

“O impacto que a UNIFAL-MG tem em aumentar o potencial de contágio e de aumentar a incidência no município de Alfenas, pela volta dessa população de estudantes e, especialmente, porque Alfenas tem um ritmo de contágio que está maior do que o do Sul de Minas, é mais prejudicial e de maior risco do que a volta dos nossos universitários para Varginha e especialmente Poços de Caldas”, constata, apontando que em comparação com 154 municípios do Sul de Minas, Alfenas tem a 17ª maior incidência acumulada; Varginha tem a 24ª maior e Poços de Caldas, a 109ª incidência acumulada.

Em relação à taxa de mortalidade, o epidemiologista chama a atenção para o indicador de Poços de Caldas. Se no que se refere à incidência acumulada, Poços de Caldas registra um ritmo menor de contágio, na taxa de mortalidade o número supera o da região. “No Sul de Minas, hoje nós temos para cada 100 mil habitantes, 269 óbitos por covid-19. Em Poços de Caldas esse valor é 304; em Alfenas 271. Muito semelhante ao valor do Sul de Minas; e em Varginha 260, um pouco abaixo do Sul de Minas”, aponta.

Segundo o professor, é preciso se atentar para a proporção de população idosa no perfil demográfico de Poços de Caldas, que é significativamente maior que em Alfenas e Varginha. Se entre a população idosa, existe maior risco de morte, municípios com maior proporção de idosos tendem a ter uma taxa de mortalidade também maior.

Quanto ao indicador de letalidade, que aponta o número de mortes em relação aos doentes, para cada 100 doentes de covid-19, o Sul de Minas registra 2,3%. Em Poços de Caldas, esse número vai para 3,4%, o que segundo o professor Sinézio Silva, pode estar influenciado pelo número maior de idosos na cidade. Em Varginha, o percentual é de 1,9 e em Alfenas, 1,8, o que fica um pouco abaixo do índice da região que é 2,4%. “Em Alfenas, de cada 100 doentes, registramos quase duas mortes. Em Varginha, de cada 100 doentes, quase duas mortes e em Poços de Caldas, de cada 100 doentes, aproximadamente 3 mortes.”

A leitura feita pelo epidemiologista é que se um município apresenta uma letalidade menor, pode-se considerar que a qualidade da medicina intensiva está influenciando positivamente, que é o caso de Alfenas, por exemplo.

Sobre os indicadores de internações e óbitos, Prof. Sinézio Silva detalha que no Sul de Minas, o índice de internações está em 7%, o que significa que, de cada 100 casos, há registros de sete internações. Já o índice de óbito por internação (número de óbitos em relação ao número de internações) o Sul de Minas registra 30% — de cada 100 internações, acontecem 30 óbitos.

A cidade de Alfenas apresenta um pouco menos do que o Sul de Minas, em relação a número de internações por caso. “O Sul de Minas tem 7% de internação por caso, Alfenas tem 6%; Poços de Caldas têm 11%, então em Alfenas ao longo de toda a pandemia, de cada 100 casos, registramos seis internações. Em Poços de Caldas, de cada 100 casos, considerada toda a pandemia, registrou-se 11 internações; e em Varginha, de cada 100 casos, considerando toda a pandemia, nós registramos oito internações. Nesse indicador, por exemplo, Alfenas está um pouco melhor”, indica.

No que diz respeito ao índice de óbitos, que no Sul de Minas é 30%, Alfenas também registra 30%, Poços de Caldas, 29%, e Varginha, 23%. “Nós estamos acumulando dados em número, porque a Ômicron foi predominante em 100% das amostras genotipadas em Minas Gerais pela Secretaria Estadual de Saúde na última semana de 2021. Quando começamos a observar a curva, nós começamos a subir essa curva lá pelo dia 28 de dezembro, então nós temos aí uns 14 dias, que é um número interessante para analisar a pandemia”, diz.

Fechando a análise, o epidemiologista comenta que nesse período de alta da variante Ômicron, os pesquisadores observam que para cada 100 casos, associam-se de uma a duas internações, o que demonstra uma proporção três vezes menor de internação, porém, a situação pode mudar se houver muitos casos.

“Menor percentual de internados está acontecendo em relação aos casos; só que se tiver muitos casos nós podemos ter muita internação e com muita internação, e aí tem o problema dos surtos de gripe também pela variante H3N2 Darwin, nós podemos ter de novo uma superlotação nos hospitais e a própria qualidade do atendimento fica complicada, isso se soma a profissionais que podem estar afastados pela doença e por esses motivos a morte por covid-19 pode aumentar”, alerta. “A epidemia se controla evitando casos novos”, conclui. 

Prof. Sinézio Silva é coordenador dos projetos “Perfil Epidemiológico e Indicadores de Saúde (Indcovid)” e “Informação sobre covid-19 para a comunidade (Infocovid)”. 

Acompanhe todos boletins epidemiológicos aqui.

Fonte: Dicom/UNIFAL-MG

 

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