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A Questão do Humor

Como que ele se torna útil na terapia

18/06/2023 às 16h18 Atualizada em 18/06/2023 às 19h19
Por: Redação 4
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Por Isnard Manso Vieira

O riso, se levado a sério, tem uma história gloriosa. Não se pode saber quando começou, qual foi o primeiro Pitecantropos Erectus ou Homo Sapiens que tenha dado o primeiro riso da humanidade. Mas, certamente, quando isto aconteceu, o riso foi motivado por alguma situação esdrúxula, grotesca, contraditória, inusitada ou por ter despertado, no bicho homem, uma considerável carga de humor. Daí pra a frente o riso virou um tipo de comportamento que o homem passou a ter, até inconscientemente para, depois, num outro momento, ir percebendo o seu verdadeiro papel, as razões que o motivam, o bem estar que proporciona, a descontração que causa, as propostas e intenções contidas no exercício do humor vindo desaguar na Gelotologia. (No Brasil, a Gelotologia é conhecida por Risologia).

Portanto a Gelotologia ou Risologia é o ramo do conhecimento que estuda o humor, o riso e seus derivados bem como os efeitos que produzem na criatura humana. E tudo isto dentro de uma perspectiva científica, médica, fisiológica, sociológica política, psicológica etc.

Sim, porque o riso merece ser estudado (e vem sendo estudado) em toda esta abrangência - e até mais - na medida em que quando rimos, movimentamos vários músculos como: o depressor do ângulo da boca, o bucinador, o orbicular dos lábios, o risório, o mentoniano e o masseter, sem falar que ele, o riso, produz milhares de sinapses nos nossos 65 bilhões de neurônios, abrange todas as idades, é absurdamente democrático, não tem preferência por cor da pele, nem por posição ideológica, nem social ou cultural e a ausência dele cria problemas sérios na criatura humana.

Quando o processo do riso entra em ação e toma conta do nosso ser, a produção de serotonina - a endorfina que provoca alegria, sensação de prazer, de bem-estar - é aumentada, trazendo benefícios fantásticos para o corpo e se torna retro alimentador: quanto mais se ri, mais se sente prazer no riso. E quanto maior prazer, mais serotonina é produzida, melhorando o estado mental, emocional, racional, fisiológico da criatura humana. Não é por acaso que existe o conceito de que “rir é o melhor remédio”.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Loma Linda, na Califórnia, USA, mostra que a liberação da serotonina através do riso melhora a circulação do sangue e a eficácia das defesas do organismo evitando, inclusive, doenças cardíacas.  Em algumas clínicas de saúde, os Gelotólogos recomendam a indução do riso como terapia. E os resultados são promissores. Centenas de pessoas já melhoraram, já superaram problemas de saúde, graças ao exercício do riso.

A palavra que define esta disciplina é de origem grega, gelos, e homenagem a Ghelos, o “Deus do Riso”. Ora, se existe um Deus do Riso, por que então vamos infernizar a vida levando-a de forma triste, diabólica, dramática, carrancuda e pesada? Não é muito mais agradável que ela seja suave, engraçada, doce e leve, inclusive proporcionando alegria e satisfação para as pessoas que estão à nossa volta? Quem é que gosta de gente mau humorada? Quem é que gosta de carrancismo? Quem é que gosta de tristeza?

Mas afinal, o que vem a ser o Humor? Se a pergunta não quer calar, vamos buscar a explicação, contextualizar o que ele é, esmiuçar, escarafunchar, procurar estabelecer suas propriedades, origens, causas e seus efeitos, bem como as consequências que provoca.

Qualquer mensagem expressa através de atos, palavras, escritos, imagens ou músicas, desde que tenha a intenção de provocar riso, esgar, sorriso ou gargalhada, é humor. E é muito recente o conceito de humor. Breemer e Roodenburg mostram que o seu significado moderno foi registrado na Inglaterra, em 1682, pela primeira vez. Antes disso, humor significava disposição mental ou temperamento.

Humor é um substantivo masculino, que vem do Latim humore, significando ter disposição, ter ânimo, ter veia cômica.  E ao falar em veia é bom lembrar que os líquidos que temos dentro do corpo são chamados, de há muito, de Humores e vem do grego umus, que quer dizer líquido. Mais na frente passou-se a grafar humos, do Latim, e que quer dizer terra.

Lá, na Antiguidade Clássica, nos tempos de Galeno (grego que viveu mais no Império Romano) já se sabia que os humores regiam o organismo humano. E eram eles: o sangue, a bile amarela, a fleuma (secreção pulmonar) ou pituíta e a bile negra ou atrabilis. Conforme a predominância de um destes humores, o homem seria sanguíneo, fleumático, colérico ou melancólico.  Aquele que tivesse todos estes humores, funcionando de forma equilibrada, seria o homem bem-humorado. E isto existe até hoje. 

E veja então que coisa curiosa: quando uma pessoa é explosiva, briga facilmente, perde o controle da situação, é colérica, diz-se que ela tem o quê? O sangue quente. É uma pessoa do tipo sanguíneo. Aquele que demonstra paciência enorme, que expressa calma, que é frio, insensível à dor e ao sofrimento, que não demonstra nenhum tipo de emoção, é o fleumático. Já aquele que tem um fígado funcionando com alguma precariedade, e isto o torna meio descompensado e ele fica amarelo, sem energia, sem força, é porque a sua bile extravasa. E, no caso, bile amarela. Daí o conceito de que amarelou, ficou amarelo de medo. E já aqueles que têm biles negra (atrabílis) torna-se melancólico, hipocondríaco. E os filósofos lá na Antiguidade Clássica já tentavam explicar o comportamento das pessoas através dos seus humores. Claro que muita coisa mudou de lá para cá e a ciência, hoje, já explica os velhos conceitos dando-lhe uma nova roupagem. Mas a essência, a chama básica da verdade, já tinha sido detectada e explicada pelos gregos.

A Teoria Humoral, também conhecida como Teoria dos Quatro Humores ou Teoria Humoral Hipocrática (ou Galênica), (são conceitos de Hipócrates e de Galeno) era a explicação lógica, racional e a única possível naquela época, para a saúde e para a doença. Isto foi um paradigma entre os séculos IV a. C. e o XVII. (E aqui cabe-nos fazer reverência à sabedoria de Hipócrates, o pai da medicina, que curava pessoas, aliviava as dores e diminuía a febre dos pacientes, usando o “pó ácido da casca do salgueiro”. O uso deste remédio é mencionado nas civilizações antigas - Sumeriana, Egípcia e Assíria. Só em 1763 é que as propriedades ante piréticas do salgueiro foram descobertas cientificamente para, quase 100 anos depois, a salicina – princípio ativo da casca do salgueiro – ser isolada e surgir então o ácido salicílico. Em 1897, o farmacêutico alemão Bayer, resolveu juntar, quimicamente, o ácido salicílico com acetato, criando então a famosa Aspirina, que foi a primeira criação da Indústria Farmacêutica. Mas tudo isto veio lá da Filosofia Clássica Grega).

Depois desta digressão, que tem o objetivo de fazer justiça aos nossos sábios e filósofos do passado remoto, pais de todas as conquistas que temos hoje, voltemos à teoria humoral hipocrática só para deixar claro que nossos pensadores, lá detrás, acreditavam que o equilíbrio da vida era mantido pelo bom funcionamento dos quatro humores. Acreditava-se, portanto, que quando o equilíbrio era pleno, a pessoa estava de bom humor. Quebrado o equilíbrio surgia o mau humor e, no seu rastro, as doenças, de toda sorte. Dá para perceber o quanto que o bom humor tem conotações com a saúde. E dá para perceber também, como que o pensamento clássico grego era mais holístico do que cartesiano, o que hoje é consagrado pelo novo paradigma de que tudo tem a ver com tudo, que não há nada isolado no mundo, que há uma interdependência entre os fenômenos e de que o homem é um conjunto complexo de energias que se interagem: o pensamento é mais do que o simples ato de pensar e gera doenças ou saúde; de que nossa harmonia não depende só de se ter saúde física, é necessário que se tenha mente e corpo sãos, além de pensamentos, bons propósitos, valores etc.

De tudo que já se estudou, pensou, refletiu e se falou sobre a questão do humor e do riso, além do lado jocoso, engraçado, descontraído, canalha, agressivo, preconceituoso, que nos aproxima das pessoas, que nos insere socialmente, que nos ajuda na aceitação, no pertencimento, tem vantagens outras, enormes. É mais do que provado que uma pessoa, ao entrar em uma loja onde dois vendedores atendem, é maior a possibilidade desta pessoa preferir o vendedor que estiver sorrindo. Ou que sorri.

Acreditava-se que existia um local determinado no cérebro, responsável pelo riso. E este foi um grande desafio que intrigou cientistas durante muito tempo. Hoje, já se sabe que não há um local que seja a sede do riso, o lugar do seu nascimento. Ele pode eclodir em várias regiões dependendo do que o esteja motivando. O ato físico de rir é um processo que começa no tronco encefálico que, por sua vez, modifica a respiração provocando então uma sonora risada. Neste caso, o riso vai nascer no encéfalo. Mas se o riso é desencadeado por jogos verbais, é o lobo frontal que vai trabalhar mais e, por sua vez, será a sede daquele riso. E vai por aí afora.

Riso, sorriso, gargalhada, esgar e humor não são a mesma coisa. O riso, o sorriso, a gargalhada, o esgar são respostas fisiológicas ao humor. Estão, evidentemente, no mesmo pacote, mas significam coisas diferentes. Todos eles têm compromissos diretos com a expressão facial que é resultado da contração dos músculos das extremidades da boca. E então no terreno psicológico-afetivo o riso pode surgir por um sentimento de prazer, bem-estar interior, bem íntimo, quer de alegria, de felicidade, de satisfação, ou de compensação. Já no terreno linguístico o riso pode ter origem numa piada ou em outro recurso do humor. Se considerarmos o terreno fisiológico ele já pode ser provocado por ação mecânica como cócegas ou por um estado alterado de consciência, com drogas. Dos vários tipos de drogas que podem provocar o riso tem o gás nitroso.  Este gás, também conhecido como o gás do riso, vem tendo grande aceitação no meio do público jovem de vários lugares do mundo sendo que, na Nova Zelândia, um em cada oito estudantes, usa a droga para fins recreativos, conforme pesquisa publicada no jornal médico britânico The Lancet. Detalhe significativo é que, a grande maioria dos risos, sorrisos, esgares, gargalhadas, são saudáveis. Já este último, provocado pelo gás do riso, é perigoso e faz mal à saúde já que a inalação costuma causar alucinações e uma forte sensação de que a pessoa está perdida.

O riso enquanto componente natural do comportamento humano é comandado pelo cérebro e é contagioso. A risada de uma pessoa pode levar outras a acharem que aquilo é engraçado, o que leva outra a rir também, chegando a um momento em que todos, em uma roda, estarão rindo sem que haja nenhum motivo especial. Apenas o desencadear de uma risadaria que começou com um imput de riso.

Por que rimos? A risada acontece quando as pessoas se sentem à vontade umas com as outras, quando elas se sentem abertas e livres. “E quanto mais riso, vai haver maior vínculo dentro do grupo” é uma afirmação do antropólogo Mahadeve Apte. Não só ele, mas vários outros antropólogos, sociólogos, psicanalistas e filósofos se interessaram pela questão do riso e do humor. A lista de figuras que se dedicaram a estudar o fenômeno do riso é imensa e a bibliografia a respeito tem o tamanho do mundo. Simplesmente porque o humor, o riso e todas as suas derivâncias estão presentes em todos os momentos da história do homem, em todos os países e nas mais variadas sociedades.

Dos estudiosos do riso e dos livros escritos a respeito, pode-se citar Victor Raskin que produziu o Semantic Mechanisms of Humoand Ontaly Semantics (ainda não publicado no Brasil); Mahadev Apte, um antropólogo americano (parece que ele nasceu na Índia mas viveu nos USA) temos o Humor e Riso - Uma abordagem antropológica; o nosso Sigmund Freud, conhecido de todos, dedicou-se a estudar Os Chistes e suas relações com o inconsciente; já Henri Bérgson, através da sua obra O Riso, analisa suas causas, razões e formas de expressão. Um dos mais respeitados estudiosos do riso é o neurocientista Robert Provine, da Universidade de Maryland, em Baltimore, (EUA), que tem trabalhos sobre o Riso e as cócegas.  E temos o W. F. Fry, que se dedicou a estudar o assunto e escreveu A Biologia do Humor, livro no qual coloca suas reflexões e pesquisas sobre os efeitos do humor na criatura humana. E temos ainda Alfredo Fedrizzi, com O Humor abre os corações e Talvini Lange, com o Humor na Publicidade Comparativa e centenas de outros.

Falando em Propaganda não se pode deixar de fazer um registro sobre o papel que já exerceu, e exerce, no humor. A Propaganda, enquanto ferramenta de comunicação do Marketing, já há muito tempo explora o humor como instrumento de persuasão.

Descobriu-se, de há muito, que o chiste, a brincadeira, a busca do riso, do esgar, do sorriso, perseguidos pela Propaganda, provoca resultados espantosos. Existem pesquisas que mostram esta importância sendo que, de 10 comerciais premiados em Cannes, 8 têm predominância no bom humor, na graça, no riso. As pessoas recebem muito melhor uma propaganda engraçada, do que aquela formal que se limita a enumerar os pontos de venda do produto que não consegue prender o consumidor, que não o estimula para a emoção, para o riso ou, pelo menos, para o sorriso.  

Não é por acaso que Carlos Moreno, o modelo publicitário da Bom Bril, durante anos, encarnou os vários personagens criados pelo Washington Olivetto e pelo Francesc Petit (DPZ), bateu recordes de aceitação e de duração em campanhas publicitárias, figurando hoje no Guiness.  

O lançamento da Danone, empresa francesa, no Brasil, teve como modelo um garoto francês que falou durante todo o comercial, em português (com acentuado sotaque) e que, na frase final: Tenha sempre Danone na sua geladeira, não conseguia falar corretamente. Ele dizia “geladerra”. Ele mesmo achou graça por ter falado errado e repetiu, na tentativa de corrigir: geladerra. A produção achou que devia aproveitar este “erro” e o colocou no filme. E este “erro”, deu uma leveza, um toque de humor, criando uma aceitação para o comercial acima da média e da expectativa tornando a marca mais conhecida, admirada e de fácil aceitação pelo público.

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Murillo AntunesHá 1 ano Maricá - RJFabuloso Não e ato a que te considero meu GURU. Voce e um génio da literatura. ????????????
Julio RodriguesHá 1 ano Rio de Janeiro, RJSensacional, Isnard. Parabéns por esta nova empreitada o obrigado por compartilhar mais este conhecimento.
Sônia Gracia Pucci MedinaHá 1 ano Rio de Janeiro Parabéns meu querido e genial amigo. Só você para nos brindar com esta pérola do riso! Continue.
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Sobre o blog/coluna
Isnard Manso Vieira, é de Alfenas. Foi para o Rio aos 18 anos e retornou agora, aos 86. Publicitário por 45 anos, foi professor por 17 anos, na Universidade Veiga de Almeida, no Curso de Comunicação Social. Formou-se em Propaganda e Jornalismo e Pós Graduou-se em Docência do Ensino Superior, depois dos 70 anos. Escreveu 3 livros (Retalhos de Sabedoria, Causos Engraçados da Propaganda e José Kezen – o homem, o empreendedor e o político (sob encomenda).
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