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Política AUTISMO

Em programa de rádio, prefeito de Alfenas fala que autistas não têm sentimento

Luiz Antônio da Silva fez uma afirmação em que diz que o presidente Bolsonaro tem traços de autismo e que autistas não sentem e não têm sentimento

05/02/2021 00h58 Atualizada há 2 semanas
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Por: Redação 4
Prefeito de Alfenas Luiz Antônio da Silva em seu programa semanal
Prefeito de Alfenas Luiz Antônio da Silva em seu programa semanal

Américo Passos

Durante o programa de rádio “Conversa com o Prefeito”, que conta com a participação do prefeito de Alfenas Luiz Antônio da Silva na rádio comunitária do Pinheirinho, sendo também transmitido por vídeo em redes sociais, houve uma fala do prefeito, no último dia 23 de janeiro, confira no link, que repercutiu nas redes sociais com inúmeros comentários contra as afirmações feitas pelo prefeito, que afirmou que o comportamento do presidente Jair Bolsonaro era de uma pessoa que tem traços de autismo e, por isso, ele não tem sentimentos e que os autistas não têm sentimento. 

Comentário de um pai sobre a fala do prefeito na rede social/Foto: Reprodução Facebook

A professora Silvia Machado de Faria, formada em pedagogia e graduada em psicopedagogia, que atua como professora de apoio de um aluno autista na Escola Polivalente em Alfenas, relatou em entrevista ao O Alfenense como é a interação de uma pessoa autista no ambiente escolar e em sociedade.

Silvia Machado descreve que este aluno interage com toda a escola e com todos os colegas, e que ela auxilia nesta interação e também nas atividades escolares do aluno. O autista tem sentimentos e tem uma forma própria de expressar-se de acordo com cada pessoa, mas isso não significa que ele não tenha sentimento.

Sílvia Machado enfatiza que o autista tem uma forma própria de expressar seus sentimentos e isso não significa que ele não tem sentimento/Foto: Arquivo pessoal

A professora esclarece que o autismo se caracteriza pela presença de um desenvolvimento atípico na interação social e comunicação, às vezes pode restringir-se ao interesse a poucas atividades, podendo, em alguns casos, levar ao isolamento.

Conforme Silvia Machado, cada autista é de um jeito e cada indivíduo tem uma característica própria e enfatiza que o aluno com o qual ela tem interação tem uma vida normal e relaciona-se de forma normal com a família e também com o meio social.

Abaixo, está acessível o trecho do vídeo do programa com a fala do prefeito a respeito do autismo:

Em nota enviada pela assessoria de imprensa, o prefeito declara:

"Foi tirado do contexto, se tratava da pessoa que vive ilhada no próprio mundo, sem ter sentimentos com o restante da população, diferente da síndrome autista"

Prof. Dra. Sílvia Ester Orrú, professora da Universidade de Brasília e colaboradora na Universidade Federal de Alfenas, coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Aprendizagem e Inclusão (LEPAI), autora de livros, capítulos e artigos em periódicos nacionais e internacionais, concedeu entrevista ao O Alfenense. Veja abaixo algumas explicações concedidas pela professora, a entrevista na íntegra pode ser acessada no link.

Prof. Dra. Sílvia Ester afirma que: "as pessoas não se repetem! Somos todos igualmente diferentes!"/Foto: Arquivo Pessoal

Autismo e seu diagnóstico

A Profa. Dra. Sílvia Ester Orrú esclarece que o acesso ao conhecimento sobre o “autismo” é fundamental para a eliminação de todas as formas de ignorância, preconceito, discriminação, segregação e exclusão social, bem como para seu tratamento e acompanhamento visando melhor qualidade de vida para a pessoa com Transtorno do Espectro Autista e seus familiares.

A professora e pesquisadora esclarece que o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista costuma ser realizado pelo neurologista e/ou psiquiatra junto com uma avaliação multidisciplinar constituída por pedagogo, psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. Destaca que embora o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista seja universal, as pessoas são únicas e singulares. Da mesma maneira, as pessoas com autismo se diferem como qualquer ser humano, pois a diferença é um atributo próprio da espécie humana. Sílvia Ester Orrú enfatiza: “as pessoas não se repetem! Somos todos igualmente diferentes!”

Ela explica que o Transtorno do Espectro Autista se configura, predominantemente, por interações sociais singulares propensas ao isolamento, distintos processos e modos de aprender, presença de interesses particulares relacionados às temáticas específicas, disposição variável às rotinas, dificuldades na área da linguagem sendo muito perceptíveis no ato da comunicação, além de peculiaridades no processamento das informações sensoriais.

Autismo e sociedade

A professora e pesquisadora afirma ainda que uma sociedade altamente excludente e cruel como a nossa padroniza como as pessoas devem viver, agir, vestir, aprender, como elas devem ser. E quando alguém se difere desse padrão, a pessoa é tratada como “anormal”. Daí vem a ignorância inqualificável de insultar um outro alguém como “autista”.

Essa barbaridade incivil tem sido proferida, comumente, por políticos e influentes. Quando querem ofender um adversário, usam do termo “autista” como forma de desqualificar o outro.

É inaceitável destratar quem quer que seja, ainda mais políticos, usando o termo “autista”. A forma mais próxima do aceitável é, após o ajuntamento de provas cabíveis, nomeá-las de desonestas, mequetrefes, energúmenos, exploradores, opressores, genocidas e, então, afastá-las da representação pública por meio de processos legítimos e democráticos.Às pessoas com autismo, todo nosso respeito!”, finaliza a entrevista a Prof. Dra. Sílvia Ester Orrú.

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