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Mais de 100 vidas roubadas pela Covid-19 em Alfenas

É com tristeza que escrevo. Confesso que gostaria de escrever sobre outro tema, mas infelizmente batemos uma marca, mais de 100 pessoas perderam suas vidas pela COVID-19, em Alfenas, e sinto que é necessário escrever e falar, não podemos naturalizar ou aceitar passivamente tantas mortes

20/03/2021 09h44 Atualizada há 4 semanas
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Por: Redação 4
Alfenas adotou as restrições da Onda Roxa para conter os índices de contaminações por Covid-19 que já passam de 4 mil casos confirmados/Foto: Arquivo Pessoal
Alfenas adotou as restrições da Onda Roxa para conter os índices de contaminações por Covid-19 que já passam de 4 mil casos confirmados/Foto: Arquivo Pessoal

Guilherme Abraão

Em 30 de março de 2020, Alfenas confirmou o primeiro caso de uma paciente com o coronavírus. A primeira morte ocorreu no 12 de julho, uma idosa, que estava internada na UTI da Santa Casa. Nas mídias locais veio a informação de que ela fazia tratamento contra um câncer no pulmão e teria contraído o novo coronavírus no velório do marido, no final de maio.

Passados apenas 249 dias desde a primeira morte, Alfenas chega a triste marca de 102 vítimas da COVID-19. Os números da doença continuam subindo. Em apenas dois dias, houve um aumento de 171 casos oficiais, chegando a 4.602 no histórico acumulado (dados do Boletim Epidemiológico da Prefeitura de Alfenas/MG, do dia 17 de março). E foi também, nesta quarta-feira, que o Brasil registrou 2.736 mortes nas últimas 24 horas, um assustador recorde! Mais triste é saber que os estudos e cálculos de especialistas apontam que iremos atingir e passar as 3 mil mortes diárias nos próximos dias, enquanto ocorre quedas nas médias mundiais.

Para além dos números da pandemia, notamos duas ocorrências que vêm contribuindo e muito para o aumento exponencial de tais números. A primeira e mais forte é o negacionismo. Boa parte da sociedade deixou de acreditar na ciência, nas orientações médicas, de especialistas, e muitos ainda se recusam a usar máscaras, questionam sua eficiência, e acreditam no tratamento precoce com remédios sem comprovação dos órgãos reguladores. Percebemos este fenômeno em todos os níveis e classes sociais, sem distinção. O negacionismo se impregnou em todas as camadas da sociedade, e um dos grandes dispersores são as redes sociais, com vídeos e textos simplistas que desprezam o acumulo de séculos da medicina para opiniões vagas e sem embasamento nenhum.   

A outra é a ausência do luto. A COVID-19 é tão feroz e agressiva que nos impede de despedirmos dos nossos entes queridos, dos amigos, dos vizinhos que têm a vida ceifada por ela. Temos muito forte em nossa cultura a dinâmica e os ritos próprios dos velórios e sepultamentos, momentos finais para despedir, e isso o coronavírus nos impede. Esta falta dos abraços, das palavras acalentadoras ditas olhando nos olhos de quem fica e perdeu alguém causa e intensifica um sufocamento e fazem imensa falta. Nossa sociedade, muito pelo negacionismo, não parou para pensar e refletir, para sentir as perdas, que antes eram longínquas, vista apenas nos cansativos telejornais, agora ela está mais perto. Se antes haviam pessoas que não tiveram nenhuma perda em sua família ou de conhecidos, isso já não existe após este um ano de pandemia. Mas nossa sociedade se nega a viver este justo e necessário luto, agora um luto coletivo.

Tomar coragem de escrever sobre as mais de 100 vida roubadas pela COVID-19 em Alfenas, como dito no início, não é um tema fácil e tampouco prazeroso, mas é necessário, justamente para ajudar a quebrar a ideia dos números. As pessoas que se foram não eram e nunca serão apenas números estatísticos, e não podemos permitir que isso ocorra. Elas tinham nomes, sonhos, amores, eram pais, mães, filhos, filhas, avôs, avós, primos, primas, tios e tias ou eram ainda amigos, conhecidos, vizinhos de alguém. Devemos ter respeito e cuidado com a memória destes 102 alfenenses que nos deixaram abruptamente após sofrerem muito lutando contra esta doença nos leitos hospitalares e das outras tantas que infelizmente virão. E especialmente das 17 vidas roubadas no surto que ocorreu no Lar São Vicente de Paulo de Alfenas.

Em paralelo às mortes, um amplo e profundo estudo, conduzido pelo professor de epidemiologia Sinésio Inácio da Silva, da Universidade Federal de Alfenas, mostrou que a vacinação de idosos em Alfenas era menor do que a média do Sul de Minas. Apontou ainda que esta porcentagem de vacinados poderia ser um erro de estratégia que pode levar a mais mortes. Diante da forte repercussão, o Ministério Público (MP) recomendou à Prefeitura de Alfenas a priorização da vacinação de idosos, o que foi acatado. E esta não foi a primeira vez que o MP teve que agir. Em 08 de julho de 2020, a Prefeitura teve que acatar uma série de exigências de um documento que trazia recomendações e apontava medidas para serem aplicadas imediatamente no Asilo Lar São Vicente de Paulo, certamente estas ações contribuíram e muito para o controle dos casos e mortes no local.

É inevitável dizer que não precisávamos estar passando por isso dessa maneira. Escolhas erradas foram feitas na condução do combate à pandemia, e cada dia o Brasil bate recordes macabros, ao contrário das médias mundiais.  Do poder público, devemos cobrar uma vacinação eficiente, fiscalização rigorosa e que não recue, que crie auxílios emergenciais para assegurar uma renda básica mínima para quem tem que deixar de trabalhar ou abrir seus negócios.

O mínimo é fazer o possível e impossível para defender nosso bem mais valioso, a vida. Enquanto sociedade, devemos nos cuidar e cuidar dos nossos que amamos para que em breve possamos voltar a nos juntar e nos abraçar em segurança. Por fim, aproveito para me solidarizar com os familiares e amigos das vítimas, sintam-se abraçados neste momento tão doloroso!  Cuidem-se!

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Sobre Ao Ponto
GUILHERME ABRAÃO, formado em Direito pela PUC Campinas/SP, aluno de Ciências Sociais pela UNIFAL. Foi consultor da UNESCO, Conselheiro Estadual de Cultura, Superintendente de Cultura da Prefeitura Alfenas/MG, foi Assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados, Assessor Jurídico da Prefeitura de Pouso Alegre/MG, e Diretor Municipal de Cultura em Estiva/MG. Vice-presidente do Circuito Turístico Lago de Furnas. Faça contato através do e-mail: [email protected]
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