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Saúde RITMO LENTO

A importância da vacina contra a Covid-19

A demora na imunização atrasa o controle e a diminuição dos casos da doença, segundo especialista

16/04/2021 19h35 Atualizada há 4 semanas
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Por: Redação 4
Com alta taxa de contaminação e baixa vacinação o vírus está criando mutações o que pode comprometer a imunização da população/Foto: Gilson Leite - Arquivo O Alfenense
Com alta taxa de contaminação e baixa vacinação o vírus está criando mutações o que pode comprometer a imunização da população/Foto: Gilson Leite - Arquivo O Alfenense

Américo Passos

A vacinação contra a Covid-19 em todo o país está em ritmo muito lento. Ora a falta do imunizante, ora a demora na distribuição da vacina quando disponível, estão acarretando sérios problemas que vêm impactando na economia e no sistema de saúde, em especial quanto à estrutura de atendimento hospitalar.

Informações referentes à vacina podem ser obtidas no “Vacinômetro”, que é uma ferramenta disponibilizada pelo governo de Minas Gerais em que se pode acompanhar a evolução da vacinação e também a quantidade de doses do imunizante enviadas aos municípios, assim como o número de pessoas vacinadas.

Confira como está a vacinação em Minas Gerais clicando no link abaixo:

https://coronavirus.saude.mg.gov.br/vacinometro

O Alfenense entrevistou o Prof. Sinézio Inácio da Silva Júnior, professor de epidemiologia e saúde coletiva da UNIFAL-MG, que explicou sobre a importância da vacina para o controle da pandemia e abordou os problemas que a demora na imunização pode causar.

Com alto ritmo de contágio e baixo número de vacinados estamos ajudando o vírus a aprender a ficar resistente às vacinas, enfatiza Prof. Sinézio Júnior/Foto: Asscom Câmara Municipal

O Alfenense/Por que é tão importante imunizar a população contra a Covid-19?

Prof. Sinézio Júnior: A importância está em podermos chegar à chamada imunidade coletiva que garantiria o controle da pandemia. Mas, com o ritmo lento da vacinação, de imediato, o quanto mais avançarmos priorizando as pessoas idosas e com doenças crônicas, pelo menos diminuiremos o risco de internações e mortes. Tirando a pressão sobre os hospitais e o sistema de saúde, permitimos o retorno ao atendimento das demandas represadas para o tratamento de outras doenças e condições de saúde.

O Alfenense/A demora na vacinação pode trazer que problemas?

Prof. Sinézio Júnior: A demora da vacinação, quer dizer, o seu ritmo lento, traz, além do atraso em resolver o risco de colapso hospitalar, um outro grande problema que conhecemos nesta pandemia. É que, quanto mais tempo passamos com alto ritmo de contágio como estamos e baixo número de vacinados, nós ajudamos o vírus a “aprender” a ficar resistente às vacinas, porque facilitamos o contato do vírus com pessoas vacinadas, mas que ainda não desenvolveram a imunidade mais completamente. Aí o vírus tem tempo e condição de, a partir das mutações que normalmente ele sofre, fazer com que prevaleça aqueles vírus mutantes que escapam dos anticorpos criados ainda em pequena quantidade.

O Alfenense/Após tomar a vacina, quais os cuidados que as pessoas devem ter?

Prof. Sinézio Júnior: As vacinas que estão sendo aplicadas, como se sabe, são a Coronavac e a AstraZeneca. A primeira tem uma eficácia global em torno de 50% e a segunda em torno de 70%. Isso significa que não são todas as pessoas que ficarão imunes à infecção (daí, inclusive, a necessidade de vacinarmos o máximo possível). Então, alguns que forem vacinados podem pegar a doença de novo. Mas, atenção, a eficácia clínica dessas vacinas, ou seja, o quanto elas protegem de sintomas graves, que levam à internação, é praticamente 100%. Então, os cuidados são dois. Primeiro, até duas semanas depois de tomar a dose de reforço, as pessoas têm que tomar muito cuidado porque podem sim desenvolver mais facilmente a doença se forem contagiadas. E, segundo, depois do reforço, alguns vacinados (50% na Coronavac e 30% na AstraZeneca) podem sofrer a infecção e, mesmo que não desenvolvam sintomas graves, podem transmitir para outras pessoas. Quer dizer, tomou a vacina, ótimo, estará protegido contra a morte e internação. Mas, enquanto a pandemia não for controlada, mesmo a pessoa vacinada deve continuar usando máscara quando em contato com outras pessoas.

O Alfenense/O cronograma de vacinação está correto sendo feito por grupos prioritários?

Prof. Sinézio Júnior: Diante da sabida escassez de doses que viveríamos, acho que houve um importante erro estratégico. Deveriam ter sido muito mais priorizadas as pessoas idosas e mesmo não idosas, mas com doenças crônicas. Essas pessoas têm dezenas, às vezes centenas de vezes mais risco de morrer do que os outros. E essa ação foi prejudicada porque, corretamente, ao também se priorizar profissionais de saúde, a vacinação foi estendida muito além daqueles que direta e cotidianamente estão em contato com o doente e suspeito de Covid-19. Esses sim, junto com os vacinadores, deveriam ter sido priorizados juntos com os idosos e doentes crônicos. É antipático dizer isso, mas era uma necessidade estratégica. Os outros profissionais de saúde, mesmo quem atende em consultório, deveriam esperar. Eu, por exemplo, sou profissional de saúde, professor de epidemiologia e saúde coletiva e teria direito de ter me vacinado. Mas, na minha situação e neste momento, isso é um erro grave de prioridade.

O Alfenense/Quais os problemas causados pelo negacionismo referente à vacina?

Prof. Sinézio Júnior: Isso cria uma cultura de ignorância. Reforça um tipo de pensamento que regride a séculos atrás. E contribui muito para que pessoas que correm muito risco de vida não se vacinem e possam morrer, além de prejudicar o controle da pandemia e prolongar o sofrimento. Prejudica o esforço coletivo de criação de imunidade coletiva. É um absoluto exagero, porque, dentre os produtos farmacêuticos, as vacinas são dos mais seguros. É só perguntar para muitas dessas pessoas que têm esse tipo de pensamento, quais remédios elas tomam, mesmo que de vez em quando. E falar para lerem a bula de qualquer desses remédios. Elas deveriam então ficar muito mais assustadas com os possíveis efeitos colaterais dos remédios comuns, embora também não devam se assustar e deixar de usá-los quando necessário. Mas, as vacinas são de longe muito mais seguras. E alguns efeitos colaterais que possam ter são muito raros e os benefícios da vacina são muito mais compensadores. É mais arriscado pegar e sofrer de Covid-19 do que sofrer com qualquer possível efeito colateral da vacina.

O Alfenense/Tratamento precoce resolve alguma coisa? Por que a classe médica não se entende a respeito do tratamento precoce?

Prof. Sinézio Júnior: É preciso diferenciar algumas coisas. Por conceito, não existe “tratamento” precoce para nada. Só pode ser tratada alguma doença instalada. Então os que propagam essa ideia querem dizer duas coisas. Uma é que a pessoa ficaria protegida de pegar Covid. Errado, Covid-19 é uma doença infectocontagiosa e proteção contra ela é vacina. Para sua prevenção até lá é fazer o que já se sabe: distanciamento social, evitar aglomeração, usar máscaras e higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel a 70%. Outra coisa é que acham que, quando a pessoa pega a doença, esses “kits” de tratamento precoce vão ajudar a pessoa a se curar. Errado de novo. Primeiro, porque boa parte dessas pessoas iria se curar normalmente (isso é estatístico) e aí ficam achando que foi o kit. Em segundo lugar, há estudos que já mostraram a ineficácia desses “kits”. E um seríssimo problema é que essa ideia de usar esses “kits” ou medicações sem fundamento têm contribuído para as pessoas demorarem para procurar ajuda médica e chegarem em estado mais grave ao socorro hospitalar, muitas vezes perdendo a vida. Além disso, vários casos de intoxicação medicamentosa têm sido registrados. Os medicamentos normalmente presentes nesses “kits” demandam muito do metabolismo do fígado, por exemplo, são muito agressivos. Sem falar no uso indevido de antibiótico que ajuda a produzir bactérias super-resistentes e ameaçar a saúde pública.

A profissão médica é principalmente uma profissão liberal. E na sua prática é importante a experiência clínica e, eventualmente, fazendo um balanço de custo-benefício, o médico poder e desejar experimentar. Mas isso, no século XXI, não precisa mais ser uma prática frequente, porque a ciência, inclusive muito além das próprias ciências médicas, já acumulou muito conhecimento a partir do método científico. E a melhor prática hoje, até para a segurança do próprio profissional, é a chamada “prática baseada em evidências”. Evidências científicas. Isso, claro, não deve representar um trilho rígido, mas uma trilha a ser seguida. E a flexibilidade não deve significar praticar qualquer coisa. Deve refletir a própria flexibilidade que a ciência tem que ter, no sentido de estar aberta à mudança de rumo, mas sempre obedecendo o pensamento e método científico. Além disso, essa questão, trágica e indevidamente, foi contaminada por briga política e ideológica.

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